Boletim Técnico
Ano 1, no 3, junho de 1996
Editores: Carlos A. von Mühlen & Mauro W. Keiserman

GASTROENTEROLOGIA

DOENÇA CELÍACA

COMO INTERPRETAR O DIAGNÓSTICO SOROLÓGICO

  A doença celíaca é caracterizada por má absorção e distúrbios do crescimento em associação com lesão histológica específica do intestino delgado. É causada por uma reação de hipersensibilidade ao glúten, uma proteína encontrada em trigo, cevada e aveia. Os pacientes montam uma vigorosa resposta imune à gliadina. O dano tecidual é provavelmente o resultado da ação dos anticorpos anti-gliadina na intimidade da mucosa intestinal. O descobrimento de anticorpos circulantes contra gliadina, reticulina e endomísio na doença celíaca permitiu a utilização de testes não invasivos para diagnóstico e acompanhamento evolutivo da doença. Embora não sejam aceitos como patognomônicos, esses anticorpos servem como evidência da natureza auto-imune da doença e podem ser usados como triagem à luz de situações clínicas específicas.

  A literatura é ainda controversa, favorecendo a pesquisa de um anticorpo sobre outro no diagnóstico da doença celíaca. Encontra-se também sugestões sobre combinações de testes para os três auto-anticorpos como o melhor meio de utilizá-los.

O glúten é uma proteina branco-acinzentada, elástica, constituinte da massa feita com farinha de trigo. Ela se forma quando as proteinas glutenina e gliadina, presentes na farinha, se combinam com água. No processo de manufatura, o glúten da massa é alongado pelo CO2 produzido por ação de fermentos, dando à massa uma textura esponjosa e elástica. Pães feitos com glúten têm maior concentração de proteinas e mais baixo teor de amido que outros pães.

  Os anticorpos anti-gliadina são direcionados contra a proteína do cereal que presumivelmente é absorvida intacta através da mucosa intestinal. Em estudos usando-se peptídeos de gliadina purificada como antígenos, em metodologia com radioimunoensaio e ELISA, anticorpos IgA pareceram ter maior especificidade e IgG maior sensibilidade para doença celíaca. Porém, os anticorpos IgG não são específicos. Podem ser encontrados em controles normais e em outras situações como na doença de Crohn e hepatopatias.

  Por outro lado, anticorpos IgA embora específicos para doença celíaca não são encontrados em todos os pacientes. Assim, o uso combinado das duas imunoglobulinas aumenta a sensibilidade e a especificidade e permite discriminar os 3% dos pacientes com doença celíaca que têm deficiência de IgA.

  A ingestão de glúten é seguida de aumento nos títulos de anticorpos das classes IgG e IgA, os quais declinam com retorno a uma dieta isenta da proteina. Os títulos de IgG tardam mais de 6 meses para cair, enquanto os títulos de IgA declinam em 2 a 6 meses. Além disto, anticorpos anti-gliadina aparecem antes do início dos sintomas, sendo portanto úteis para monitorar a obediência à dieta e como teste diagnóstico com dieta rica em glúten.

O uso combinado de anti-gliadina IgG e IgA aumenta a sensibilidade e a especificidade e permite discriminar os 3% dos pacientes com doença celíaca que têm deficiência de IgA.

  Anticorpos anti-reticulina reagem contra a reticulina dos tecidos conjuntivos de rim, fígado e estômago. São melhor detectados por imunofluorescência em tecido usando-se fígado ou rim de rato como substrato. Vários padrões de coloração podem ser encontrados, sendo o padrão R-1 o mais característico de pacientes com doença celíaca e dermatite herpetiforme.

  A classe IgA anti-reticulina parece ser mais específica do que IgA anti-gliadina em enteropatia por glúten, além de ser um indicador com mesma sensibilidade que aquele anticorpo. Embora estes anticorpos tenham sido encontrados em doença de Crohn e outras doenças, sua associação com doença celíaca não tratada está bem estabelecida, assim como seu desaparecimento após o início de uma dieta rigorosamente sem glúten.

  Anticorpos anti-endomísio são imunoglobulinas da classe IgA dirigidas contra a substância intermiofibrilar da musculatura lisa. São espécie-específicas, reagindo somente contra o endomísio do trato gastrointestinal de primatas. São detectados por imunofluorescência em esôfago de macacos, com sensibilidade e especificidade para doença celíaca próximos a 100%. Relatos isolados têm demonstrado testes falso-positivos e falso-negativos, sendo esta última situação mais freqüente em crianças abaixo de 2 anos de idade. Quando comparados com anticorpos anti-gliadina e anti-reticulina, anticorpos anti-endomísio pareceram ser marcadores sorológicos mais específicos para o diagnóstico de doença celíaca.

  Adicionalmente, os anticorpos anti-endomísio são mais sensíveis à dieta. De acordo com os dados disponíveis, aparecem e desaparecem da circulação mais rapidamente que os outros auto-anticorpos envolvidos na doença celíaca.

A classe IgA anti-reticulina parece ser mais específica do que IgA anti-gliadina em enteropatia por glúten, além de ser um indicador com mesma sensibilidade que aquele anticorpo.

OBS - literatura à disposição da classe médica e laboratórios conveniados.

METANALYSIS

O LABORATÓRIO DO PRIMEIRO MUNDO EM PORTO ALEGRE

Os exames de seus pacientes nas mãos de especialistas em auto-imunidade.

AUTO-ANTICORPOS CIRCULANTES EM DOENÇA CELÍACA

Anticorpos

Pacientes positivos (%)

Comentários

Gliadina IgA-ELISA

50 a 90

Mais específicos do que gliadina-IgG. Diminuem em 2 a 6 meses após modificação da dieta.
Gliadina IgG-ELISA

80 a 100

Mais sensíveis do que gliadina-IgA. Diminuem em 6 a 24 meses após modificação da dieta. Úteis em pacientes IgA-deficientes.
Reticulina IgA-IF

60

Específicos de doença celíaca.
Reticulina IgG-IF

40

Baixa especificidade e sensiblidade.
Endomísio IgA-IF

98 a 100

Mais específicos para doença celíaca. Mais sensíveis à dieta sem glúten.

ELISA = ensaio imunoenzimático. IF = imunofluorescência.